sábado, 10 de dezembro de 2016

O ano não podia acabar sem essa!

Olá pessoas queridas,

Estava eu de boas, com meus aparelhos auditivos, conversando com uma mulher, e ela me contando sobre os planos dela de se graduar, e ingressar na Marinha. 
Eu disse pra ela:

-Poxa, que legal! Sabe que eu, desde criança, queria muito ingressar na aeronáutica? Só que, olha só (mostrei os aparelhos) eu sou surda e...

Antes de terminar fui interrompida pela célebre frase animada dela: 

-"Ahh que incrível!! Então tais garantida, tu entra pela cota de deficiente, né?"




Acertô, miserávi!
Tchaaarãããnn, problema resolvido...Só que não
HAHAHA


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Reações em gifs #1

Importante: Por motivos óbvios de inclusão das pessoas com deficiência visual, os gifs tem áudio descrição logo abaixo, a cor da letra é branca, assim, quem enxerga, vê o gif e lê só a parte que interessa do texto, mas pra quem precisa de descrição, ela está ali.
(Áudio descrição: existem aplicativos que leem os textos para quem não vê. Mas o aplicativo não tem como descrever uma imagem, um gif ou vídeo, por isso, é importante descrever.)

Quando tocam no meu cabelo (e estou com os aparelhos):


[Um gif do filme infantil "A nova onda do imperador", em que o Kronk, amigo do imperador, chega e o cutuca, então o imperador se vira de repente, balança os braços como se estivesse começando uma luta, e diz "não escosta"] 


Quando reclamam que me chamaram e eu nem olhei: 

Assim fica difícil, né amigo, esqueceu?? Balança os braços, cutuca meu ombro, tira um chinelo e joga amassa um papelzinho e joga.
[Um ator olhando de frente e fazendo uma cara de "dã", meio debochada, como se estivesse dizendo "eu avisei, né"] 

Quando me sento em uma mesa comprida, cheia de gente:

Vai começar a tortura! Se for jantar, é pra olhar pro prato, ou fazer leitura labial? Céus!!
[um jovem sentado em uma mesa, com cara de nervoso/assustado, com os olhos arregalados, braços apoiados na mesa, olhando para um lado, e pro outro.]

Quando ainda insistem que legenda é frescura:


Simples. Se reclamar, a gente faz mais cartaz.
[Presidente dos Estados Unidos, o Obama, de terno e gravata, batendo na mesa e dizendo "Isso é lei"]

Quando a pessoa começa falando de frente pra mim, mas vira de costas e sai do ambiente falando:

Tá de zoeira comigo, né? Vai voltar aqui e repetir tudo, sim!
[ator que levanta ambos os braços, e abaixa batendo eles no lado do corpo, com uma cara de "o que foi que eu te disse, hein?" Uma reação típica de alguém que está pensando "eu não acredito que ele fez isso..."]


Quando estou num ambiente barulhento, sem entender nada, aí coloco os aparelhos, mas situação fica pior ainda: 
E agora? Com, ou sem os aparelhos?
[gif de uma mulher fazendo expressão de quem não está entendendo nada, com os olhos abertos, olhando para cima, e virando para o lado, ainda com a expressão de quem está perdido, sem saber o que está acontecendo.]

Quando explico pra um recém-conhecido que preciso fazer leitura labial, que no ambiente barulhento é difícil, e aí a pessoa vem querer gritar no meu ouvido:
Não tem como ler lábios se eles estão encostando na minha orelha, né criatura?
[mulher revira os olhos para cima, bate de leve na mesa, se inclina pra trás  com uma cara de indignada, mas engraçada ao mesmo tempo]

Quando de repente escuto e reconheço uma consoante que antes, pra mim, nem existia: (essa é pra quem está em adaptação aos aparelhos/implantes)

O que é isso entrando nos meus ouvidos???
[gif de um garoto fazendo uma expressão de surpresa, ele abre um sorriso, e olha para o lado, como se estivesse apreciando uma sensação nova.]

Quando começam a dizer que nada precisa ter Libras, porque existe legenda:

Shhh....Vamos respeitar a segunda língua oficial do Brasil, né?
[ator que levanta uma mão na altura do rosto de outra pessoa, e faz "shii" com a boca, sinalizando que é pra pessoa parar de falar.]

Quando a bateria do aparelho acaba no trabalho, no meio da aula ou em um evento, e eu tento me lembrar se trouxe reserva: 


Torcendo pra que aquelas na mochila sejam novas...
[mulher com cara de assustada/preocupada, olhos arregalados, mas séria, com uma sobrancelha levantada. a cena congela, ela fica toda cinza, o que dá um ar mais dramático.]


Quando tem várias pessoas falando comigo ao mesmo tempo:

Socorro! Leitura labial em um já é difícil, então, PARA!! Um de cada vez!!
[Uma pessoa com uma máscara de cavalo, que cobre toda a cabeça. A pessoa coloca as duas mãos na cabeça e vai arrastando até o peito, enquanto balança a cabeça para os lados.]


Quando alguém me faz uma pergunta, mas eu não entendi/ouvi. A pessoa espera a resposta, mas eu só estou pensando "Tomara que não tenha sido uma pergunta..." 


Uhum....é...uhum...legal...
[um sapo, de marionete, balançando afirmativamente a cabeça, olhando para um homem, e ele faz o mesmo, olhando para o sapo.]
E, por último, como me sinto por dentro quando tiro os aparelhos no final de semana:


Adeus mundo barulhento demais!!!
[Mister Bean em um carro com a capota aberta, balançando os braços e mostrando o dedo do meio, sorrindo.]


E você, tem alguma reação típica, e um gif que a descreve? 
Manda por email: daniellekmachado@gmail.com para o próximo "Reações em gifs".
=) 




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

2016 já pode acabar depois dessas...

Se juntasse todas as pérolas que me falam, sei que daria um livro. Mas como não escuto a maioria, dá só um texto mesmo. 

Here we go, resuminho de 2016, tentei escrever exatamente como me falaram:


"Mas tu namoraria com alguém com deficiência? Por que escolher alguém com deficiência se tem tanta gente ~perfeita~? Pra que passar dificuldade?



- Para, para! Socorro...A pessoa nem se tocou que eu também sou uma pessoa com deficiência...E que ela também pode se tornar uma, e com certeza não gostaria de ser deixada por isso...

"Para de pedir por legenda, quer legenda, baixa o filme em casa..." 



- Nem respondo.



"Mas se aumentar o volume pode ser dublado, né? "


-No.

"Mas eu coloco no máximo"

- Nooo.


"Ah tais usando aparelhos só há pouco tempo? Poxa, então aprendesse a falar rápido...Sabes falar bem, pra quem era muda até recentemente."



- Eu ri, mas deu vontade de dizer "Senta aqui, que tenho muuuuita coisa pra te explicar...". Detalhe, era uma pessoa da área da medicina. Gente, existem muitos graus de perda, surdos oralizados...Informação é tudo!

"Tu é surda? Ah, então por isso que tu tava tão séria, não ria de nada...Não tava entendendo o que a gente falava, né? Tu fala em Braile? "



- Braile? Não, pera...Pode ser código Morse? Hahaha

"Mas COMO que não entendeu se tá de aparelho???"



-Oh céus...Devo começar contando toda a história, mostrando tabela de frequência por decibéis, explicando sobre memória auditiva, sobre ter ficado a vida toda sem aparelhos, captando só vogais, ou...por onde?



"Mas não podem brigar contigo, discutir, tu é deficiente, eles não podem fazer isso."


[partiu pro fight]

- Nossa, é mesmo. Me providencia uma bolha de proteção pra eu me esconder dentro e nunca mais falar com ninguém, por favor?

"Que bom que dá pra esconder os aparelhos com o cabelo né?"



- Dá licença que meus aparelhos nasceram pra brilhar, beijos.

"Como que tu entendeu que eu tava falando de ti, se tu vive entendendo tudo errado, hein?
-Leitura labial.


"Parabéns, você mesmo sendo deficiente é elegante"



- Sai daqui, e leva junto esse teu preconceito de que pessoa com deficiência tem uma aparência específica.



"Poxa, que peeeeena que não escuta direito, te achei bem bonitinha"




-Ahhhhh MORRE, please!

É...Tem muito mais, conforme for lembrando, compartilho com vocês. Mas só por essas, já chega de 2016... =) 


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Paciência, muuuita paciência na adaptação.

   Pode sentar que esse é pra ler com calma. 

Obs:  AASI significa aparelho auditivo.

(Este texto foi escrito sob o efeito de altas doses de nervosismo. Por favor, paciência hehehe)

Quando alguém começa a usar aparelhos auditivos, é normal a curiosidade da família e amigos. Eles querem saber como um aparelho funciona, querem ver como é, e o principal, perguntam: "Agora está ouvindo?". Sim, algumas coisas eu estou ouvindo, mas isso não significa que estou entendendo. 

Como já expliquei nesse texto >aqui<, "A minha perda é moderada, mas é preciso explicar o que isso significa: Esqueça volume, esqueça porcentagem de audição, esqueça colocar os dedos no ouvido pra tentar descobrir como é ouvir tudo mais baixo. A perda auditiva pode se manifestar de diferentes formas, dependendo de quando ela surgiu, se foi feito o uso de algum aparelho auditivo ou implante desde a infância, e das frequências de sons que foram afetadas."


O que eu escuto, sempre foi o meu 'normal', do mesmo jeito que pra você, ouvinte, tudo está no volume normal também. 


Minha ideia sobre os aparelhos tem mudado a cada dia. Nunca imaginei que seria tão difícil e tão abrangente a adaptação. Gostei ou não gostei? Ainda não decidi. Estou fazendo uma balança imaginária, com as principais coisas boas e ruins sobre a adaptação e descobertas. Uma coisa é certa: em casa e na rua eu NÃO uso os aparelhos. É muito barulho de fundo, ruído que não sei o que é, e ao final do dia já estou no limite da paciência. 

Nos primeiros dias com aparelhos: Olha só, zíper faz barulho! *abre e fecha loucamente o zíper da mochila* Caramba, a água da torneira tem um som muito mais legal do que eu ouvia! *desperdiçando água hehe* Uau, a geladeira faz barulho! O relógio na parece faz barulho! Mouse e teclado do notebook fazem barulho! Como esses sons existiram sempre e eu não ouvia? 


Agora: 


Antes de abrir qualquer zíper, torneira ou entrar na cozinha, tiro os aparelhos. Mastigar com aparelhos? Nem pensar! Escovar os dentes? Nop, tiro também. Tem chance de alguém mexer no meu cabelo? Já tirei. Entrar no ônibus ou carro? Adeus, AASIs.  Parece que tudo em que encosto faz um barulho absurdo, como se tivesse batendo nas coisas, deixando cair, e todos estivessem olhando pra mim por causa disso. Digitar no computador no começo foi uma tortura, porque é como uma britadeira! Acredite, isso não é nada legal.  É como se acionasse o "modo adrenalina"! 




"Ah mas então tem mais reclamação dos aparelhos, do que elogio?"

 Infelizmente, por enquanto sim. 



E lá vai o mais sábio conselho pra você que não tem perda auditiva, mas que conhece alguém que está se adaptando aos aparelhos: 

♥ Não te mete, criaturinha amada.
Só isso.
Pooor favooor.
Me deixa quietinha aqui no meu canto.

Porque é muuuito fácil você dizer pra quem está tentando se adaptar:

 "Mas você PRECISA usar!"
"Você NÃO PODE ficar sem eles!"
ou "COMO ASSIM quer desistir? Você não pode!!!" 

 Quero ver é você colocar os aparelhos e aguentar tanto barulho! 

"Ahh mas eu não tenho perda auditiva" me respondem. 

Amigo, a sensação é a mesma! Esqueceu que do mesmo jeito que pra você esse 'volume' aí é o normal, pra mim, o que eu escuto também é o 'normal' ?!


É claro que eu sei das dificuldades que enfrentei e ainda vou enfrentar, por causa da perda auditiva. Lembro muuuito bem das situações vergonhosas, das risadas alheias, dos momentos que deixei de aproveitar e nervosismo por não entender muitas coisas, tanto em casa, como em sala de aula ou com amigos. E mesmo assim, apesar disso, eu prefiro ficar SEM os aparelhos na maior parte do tempo.

Então acho que dá para notar que não é fácil assim se adaptar. Sinceramente, é muito mais simples me virar na leitura labial, ignorar o que não entendi, ver filme com legendas, do que usar os aparelhos o tempo todo.

Tem gente que nasce e morre sem nunca ter ouvido um som sequer na vida. E qual é o problema? Nenhum! Por favor entenda quando alguém desiste dos aparelhos. Eu preciso considerar também a qualidade de vida: pra mim, não adianta ouvir, mas viver suuuper irritada por isso. Se algum dia essa irritação toda vai passar? Eu espero, porque do jeito que está não tem como continuar, a saúde mental é importante.

E não, não é egoísmo eu deixar de usar aparelhos em casa, pois minha família não faz nenhum esforço quanto a isso: eu que faço leitura labial, eu que levanto e vou até eles quando tentam conversar de outro cômodo, ou seja, pra eles, não muda absolutamente nada. Mas quem fica com os tímpanos latejando ao final do dia, por tentar usar aparelho? Eu, só eu. 

Quando que ainda uso os aparelhos então? No trabalho, pois às vezes preciso usar o telefone (e sempre no volume máximo). Em uma ligação, qualquer barulho externo me impede de entender o que falam, então preciso pedir para as pessoas repetirem muitas frases. Solução para diminuir a dificuldade? Como só consigo usar o telefone na orelha esquerda, eu tiro o aparelho da direita, isso ajuda a ter mais silêncio hehe.

Em sala de aula, nem pensar!!! Com os aparelhos, qualquer barulhinho fica insuportável. Alguém falou lá do fundo da sala? Parece que a pessoa está no meu lado, de tão alto. Ar condicionado era algo que pra mim não fazia barulho nenhum, mas agora, descobri que parece um helicóptero. Arrastam cadeira, abrem zíper, batem com o celular na mesa, conversam...Sala de aula com aparelhos é um INFERNO!!! Se algum dia eu for presa, com certeza será por ter levantado e dado um tapa em alguém que não cala a boca. Mentira, gente, não faria isso...

Mas por acaso existe algum motivo para não desistir? 

Sim. 

 ♥ Música ♥

Eu ainda quero, um dia, ouvir uma música e entender a letra, mesmo em português. 
Por isso, não desisto.
Tento a cada dia aprender a ouvir,
e nem sempre preciso dos aparelhos pra isso.

Mas esse assunto fica pra outro post.

Por hoje é só essa voadora delicada em forma de texto mesmo =)








Eu só não aprendi a ouvir

A minha perda é moderada, mas precisamos falar sobre o que isso significa. Esqueça volume, esqueça porcentagem de audição, esqueça colocar os dedos no ouvido pra tentar descobrir como é ouvir tudo baixinho. A perda auditiva pode se manifestar de diferentes formas, dependendo de quando ela surgiu, se foi feito o uso de algum aparelho auditivo ou implante, e das frequências que foram afetadas. 

A adaptação à perda foi natural pra mim, com o passar dos anos foi ficando mais difícil ouvir, porém mais fácil ler lábios e deduzir. (Hoje, até admiro essa capacidade de dedução, porque às vezes adivinho a frase inteira mesmo entendendo só uma palavra hehe). Tenho certeza de que se alguém, ouvinte, de repente ficasse com a minha audição, não entenderia quase nada do que escutaria.

O que aconteceu é que eu aprendi a ouvir de um jeito completamente diferente, aprendi as palavras, as frases, mesmo faltando muitas letras - e esse é o meu 'normal'.

E agora com os aparelhos eu saí entendendo tudo, entendendo a letra das músicas? 



Aiiinda não... Em dois shows que já fui, não entendi nada do que foi cantado! Por mais alto que fosse o volume, parecia outro idioma. Porém quando cantaram uma música que eu já conhecia a letra, o cérebro "preencheu os sons", e eu ouvi tudo, mas na verdade era a memória auditiva.

Fui ao cinema assistir Star Trek dublado, sem legendas, e com os aparelhos no volume alto. Anotei em um papelzinho de quantas frases longas eu não entendi nenhuma palavra.

Total: 210. Foram 210 frases sem entender sequer uma palavra.

Era como se todos falassem assim.


E eu nem contei as frases curtinhas, e as outras muitas em que perdi uma ou duas palavras, ou que deduzi pelo menos a metade. (Não faço a mínima ideia do que aconteceu no filme, até dormi um pouco.)

Por isso que para entender com aparelhos, eu preciso aprender primeiro. 

Se você assistisse um filme em um idioma completamente desconhecido, você entenderia o que é dito? Não? Por quê? Mas você não está ouvindo? Então como não entende? 

Você não entende porque não aprendeu o que significa cada som. Seu cérebro não sabe identificar. E é exatamente assim que me sinto. 

Eu apenas não aprendi a ouvir como vocês. E acho importante as pessoas saberem isso, para acabar com aquele pensamento "Se usa aparelho auditivo então ouve tudo." É, nem sempre, amigos, neeem sempre... 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"Você não tem cara de deficiente". - Como é que é ?

O complicado em dizer "Sou uma pessoa com deficiência" perto de quem não conheço é saber que após essa frase, começa:


- "Sééério? Não sabia! Que deficiência? Como assim? Nem dá pra notar. Como que aconteceu? Como que [insira umas 4 perguntas aqui]?"


Ou:


- "Tu? HAHAHA...opa, tava falando sério?" *e aquela cara de espanto*


Antes de contar para vocês uma situação, preciso explicar que pessoas com deficiência tem direito à fila preferencial, mas não por ser uma "fila rápida", mas sim uma fila onde o atendente - na teoria - está apto a lidar com o público com deficiência. No caso de idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida a fila realmente é prioritária - rápida, mas se todos fossem educados e deixassem eles passarem na frente, creio que não seria necessário um caixa específico para isso.


Eu já fui em fila preferencial (mas evito, óbvio, pois posso aguardar nas outras filas sem problema algum), e, esperando, sinto um toque no ombro, me viro e um senhor idoso me diz:


-"Sua fila não é aqui, moça, aqui é pra idoso, e você não é idosa, né?".


Respondo calmamente, apontando para a placa acima do balcão: "É para idosos e pessoas com deficiência", dou um sorrisinho e uma piscadinha. Ele me olha de cima a baixo e fala bem alto:


- "TU É DEFICIEEENTEEEE? (*Todos os olhares se voltam pra gente*) Cooomo assim tu é deficienteeee? Tu não tem cara de deficiente"...O que tu tem?"

Eu:
Q?


Respiro...penso "e lá vamos nós"..

(Penso: Não é "o que eu tenho", mas sim o que não tenho: boa audição hahaha)


Mostro a carteirinha de PCD, e digo:


-"Sou deficiente auditiva, entendo por leitura labial ou dedução daqueles sons que ainda consigo captar".


Eu estava começando a me 'revirar' por dentro por causa da frase dele, "cara de deficiente", quando ele já solta outra pérola:


-"Olha, mas parabéns, porque tu não parece deficiente, tu é alta, jovem, boa aparência..."


O QUEEE??? WHAAAT...?????
O QUEEEE??? Q?
"What, mil vezes whaat"....


Pensei: "Fiz leitura labial pra isso?! Como....assim...???! É zoeira, né? Sério? O que isso tem a ver?!!"


Isso acima ficou só em pensamento, claro, mas que deu vontade de falar, ahh com certeza deu.


Porém vamos dar uma chance pra que as pessoas abram suas mentes, não é? Talvez nem todos tiveram alguém para explicar com calma sobre deficiências, ajudar a quebrar os preconceitos, então, paciência... (Nas primeiras vezes, paciência, depois, se for algum amigo meu falando besteira eu já chego na voadora mesmo.).


Bastam 3 minutos para explicar que existem muitos tipos de deficiência, que algumas são invisíveis e que ninguém é obrigado a expor a sua, em nenhuma situação. Também, que o caixa preferencial é um atendente treinado para atender cegos, surdos ou deficientes físicos, conforme a necessidade de cada um. No meu caso, eu peço que falem olhando pra mim e de forma mais clara, mesmo sem ser fila preferencial. Em mercados já cansei de responder “Débito” quando me perguntavam “Tem ticket de estacionamento?” porque eu entendia “Forma de pagamento?” (hehe) Por isso em alguns lugares eu vou na preferencial, (quando o atendente fica atrás de um vidro, por exemplo, ou em aeroportos) ali eles geralmente agem de forma mais atenciosa, entendem que só precisam falar claramente, então não preciso passar vergonha com atendente que começa a gritar.

Porém o que mais marcou na conversa foi "cara de deficiente". Qualquer pessoa pode adquirir uma deficiência! Pode ser você, amanhã ou daqui a 10 anos. Quando é adquirida, não existe nenhuma recepção especial, ninguém ganha uma auréola e muito menos mentalidade pronta pra lidar com isso. Não chega nenhum pacote pelo correio anunciando e dando as boas vindas. Se é de nascença, às vezes nem entendemos o que isso significa porque é o único modo de vida que conhecemos - pra mim, o que eu ouço sempre achei que era o "normal".

Não existe "cara de deficiente".


A deficiência não me define por completo, é uma parte do meu corpo que apenas não funciona como a da maioria das pessoas, e que não é obrigada funcionar - pois ouvir é uma questão de livre escolha, e sempre será. E ninguém é obrigado a aceitar a classificação de "deficiente" para si, se não se sente bem com esse termo.


Ouvintes, vocês são deficientes! Deficientes em Libras para poderem se comunicar com todos, em valorizar a audição que têm, em observar onde falta acessibilidade para nós. Deficiência não acontece só lá fora. Pode ser ao seu lado, na sua família, em seu amigo, ou em você. Não há o que temer, apenas respeitar.


Por hoje é só =)












quinta-feira, 13 de outubro de 2016

É bom X É ruim #4

Bom: Lá vem aquela pessoa não muito legal (que a gente não tem nada contra, mas que também não tem nada a favor haha)  e começa a reclamar: -"Ahh te chamei aquele dia que te vi passando na rua e me ignorasse!" e eu só respondo: 

-"Ah desculpa, é que não ouvi!" 

Aham... hehehehehe Bom, o próprio nome é a coisa mais fácil de reconhecer quando alguém fala, e quem não ouve, geralmente enxerga muito bem: ninguém conhecido passa por mim despercebido. Então sim, me desculpem, mas às vezes até vi a pessoa mas aproveito a surdez pra evitar certas conversas desnecessárias, não me julguem, por favor... Hehe

Ruim: Perco a paciência muito facilmente quando alguém começa a enrolar na fala, falar muuuito devagar e repetir o que disse. E infelizmente minha família faz muito isso, fala uma frase, e mais duas ou três pra explicar a primeira. 
Quando vejo que estão explicando algo muito óbvio, já bate o desânimo. Não tenho paciência pra isso! Quando meu pai começa uma frase, na metade já sei o que ele quer falar, mas tenho que esperar terminar... Mas não gosto de "gastar neurônios" com leitura labial de coisas que já sei. Sou direta e gosto quando os outros também são. Não enrola, resume! 


E você, o que considera como bom ou ruim/engraçado ou triste sobre a perda auditiva?